Biografia
Pe. André Fialho de Vargas, S.J. nasceu em 8 de junho de 1857, em Porto Alegre, filho de Antônio Fialho de Vargas e Maria Ignácia da Conceição Dutra, em uma família que também contava, entre outros, com os irmãos Pedro e Joaquim. Entrou na Companhia de Jesus em 9 de outubro de 1874, e essa data marcou o início de uma vida inteiramente moldada pelo estudo, pelo ensino, pela formação de jovens e pelo trabalho pastoral cotidiano.
A sua formação jesuítica começou na Província Vêneta, onde aparece como noviço escolástico. Depois vieram os anos de humanidades e filosofia: em 1877 e 1878, figurou entre os auditores de retórica; em 1879 e 1880, passou aos auditores de filosofia, na França (região de Mayenne, no Château des Alleux, Cossé-le-Vivien), completando o ciclo em 1881, já em Roma, na Residência Romana VII (Via del Quirinale, 53), no terceiro ano de filosofia. Essa etapa, feita entre Itália, França e Roma, dá a medida de uma formação internacional que depois se refletiria com naturalidade no seu domínio de línguas e no estilo de trabalho que adotou no Brasil.
A partir de 1882, André Fialho de Vargas aparece ligado de modo estável à Missão Romana no Brasil, sobretudo ao Colégio de São Luiz, em Itu, com o respectivo convictório. Ali exerceu funções centrais na vida interna da casa: foi prefeito de contubérnios (responsável pelos grupos/residências de estudantes), primeiro como professor de rudimentos e, já em seguida, como ajudante e depois suplente do prefeito. Nos anos seguintes consolidou-se como educador: ensinou na 1ª classe, depois assumiu o contubérnio 2, e ensinou língua portuguesa na 1ª classe elementar. Em 1887 e 1888, continuou em Itu como professor da 2ª e da 3ª classe elementar, acumulando ensino de português e grego; os registros indicam então o 5º e o 6º ano de magistério, e ele aparece novamente como suplente do prefeito. Em 1889, surge uma nota significativa: é nesse momento que passa a ser chamado de “P.” (Padre) nos registros.
Ainda em 1889, encontra-se no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), agora com um conjunto de tarefas que mostra o quanto era versátil: atuou como ministro da casa e do convictório, foi prefeito para os doentes, trabalhou como catequista (no 1º contubérnio) e foi consultor. Essa combinação de administração interna, cuidado direto com pessoas e formação cristã acompanha a sua trajetória dali em diante. Nos anos de 1900 a 1902, permanece em Nova Friburgo com funções semelhantes, acrescidas do trabalho docente mais especializado: aparece como professor de língua grega, depois como docente de grego, latim e português, e segue como ministro e consultor. Em 1902, além de prefeito dos doentes “nossos” e dos alunos, aparece como professor de português no 4º ano e catequista dos alunos no 2º contubérnio, no 4º ano de consultoria da casa.
Em 1903, já no Rio de Janeiro, na Residência de Santo Inácio (Rua Senador Vergueiro, 35), o Pe. André surge em uma das tarefas mais características da vida pastoral jesuíta: confessor na igreja e à porta. Em 1904, na Residência e Colégio iniciado de Santo Inácio (Rua de São Clemente, 132), amplia-se o quadro: foi pregador dominical, confessor da casa e confessor na igreja e à porta, além de recolher os “pontos” para as letras anuais, que é o trabalho de registrar, organizar e encaminhar informações que alimentavam a memória institucional e a circulação de notícias internas.
Os anos de 1905 a 1909 mostram um retrato completo do seu modo de servir. Em 1905, aparece como prefeito espiritual, professor de português no ginásio, colaborador das letras anuais, e escritor da história da casa, além do confessionário. Em 1906 e 1907, soma a isso a função de prefeito dos estudos e de leitor à mesa (encarregado das leituras durante as refeições), mantendo o ensino, a escrita histórica e a rotina de confissões e o operariado apostólico. Em 1908, continua como prefeito espiritual e professor, agora explicitamente na 2ª e 3ª classes, e catequista na 1ª, 2ª e 3ª classes elementares; é também nesse ano que se registra o 19º ano de magistério. Em 1909, além de prefeito espiritual, torna-se diretor diocesano do Apostolado da Oração, ensina português na 2ª, 3ª e 4ª classes elementares, dá latim na 4ª classe, catequiza na 3ª, mantém as tarefas de letras anuais e história da casa, e completa o 20º ano de magistério.
Fora dos registros internos, a imprensa da época ajuda a perceber como ele era recebido: aparece como pregador requisitado, apontado como um dos “mais corretos oradores sacros”, incluído em programações de pregações e em atividades religiosas ligadas a instituições do Rio; há também referência a um sermão seu, com tom vigoroso e argumentação cuidadosa. Em 1908, consta como responsável pelo sermão de abertura de um retiro espiritual. Soma-se a isso um traço pessoal repetido em nota biográfica: o Pe. André tinha fama de poliglota, o que combina com sua prática real de ensino e com a naturalidade com que transitava por português, grego e latim.
De 1910 a 1912, sua atuação se fixa em Santos, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, onde exerceu funções de grande responsabilidade e de forte presença pública e pastoral: foi Superior, prefeito da igreja, diretor do Apostolado da Oração, confessor no templo e à porta, e novamente aparece como operário. Esses anos finais o mostram no auge do que tinha feito a vida inteira: governo, cuidado espiritual e trabalho direto com o povo.
O Pe. André morreu em 4 de agosto de 1912, no Rio de Janeiro, com 56 anos de idade e 38 anos de Companhia. Seu corpo foi velado em câmara ardente, poucos dias depois, conforme notícia de jornal. E, mesmo tendo vivido como religioso, sua história ainda toca o mundo familiar e civil: em 1915, aparece edital relativo ao inventário de seus bens, mencionando, entre outros, uma área de terras em Lajeado, na Picada Arroio do Meio, com 21 hectares e 3.000 m², avaliada em 1 conto de réis, além de outros terrenos: um eco concreto das origens e das ligações patrimoniais de sua família no Rio Grande do Sul.
O conjunto dessa trajetória deixa um retrato nítido: André Fialho de Vargas foi um jesuíta de formação sólida, com passagem por centros europeus, que no Brasil se tornou professor de línguas, formador de jovens, administrador de casas, escritor de memória institucional e, sobretudo, homem de confessionário e de púlpito. Entre colégios, residências e santuários, sua vida se escreveu no detalhe do serviço diário e no tipo de presença que faz a gente entender por que seu nome aparece tantas vezes associado, ao mesmo tempo, a ensino, direção espiritual e trabalho incansável.